Antiaéreo contra drones: a corrida do Exército Brasileiro por C-UAS e o que isso significa para a BID
Enquanto a mídia foca em drones ofensivos, o salto orçamentário está em sistemas contra-drones (C-UAS). Mapear fornecedores, doutrina emergente e gargalos da Base Industrial de Defesa.
R$ 1,2 bilhão. Esse é o número, ainda extraoficial, que circula nos corredores do Ministério da Defesa quando se fala em capacidade contra-drones para o triênio 2025-2027. Pode estar inflado, pode estar curto, mas dá o tom. O C-UAS Brasil deixou de ser tema de seminário e virou linha de orçamento, ainda que o debate público continue obcecado pelos drones ofensivos que apareceram na Ucrânia.
O crescimento do C-UAS Brasil reflete uma mudança estrutural na forma como as forças armadas e órgãos de segurança enxergam as ameaças de baixa altitude. O que antes era visto como um problema pontual tornou-se uma demanda estratégica para defesa nacional, proteção de infraestrutura crítica e segurança pública.
Na prática, o Exército Brasileiro vem acelerando aquisições, testes e doutrina para neutralização de UAS (Unmanned Aerial Systems) desde 2023, com tração visível após os incidentes envolvendo aeronaves não tripuladas em presídios federais e o uso massivo de FPVs no conflito russo-ucraniano. A Base Industrial de Defesa (BID) brasileira corre atrás do mercado C-UAS Brasil. Algumas empresas chegaram na frente. Outras, francamente, ainda estão tentando entender o que é uma RF jammer de banda larga.
Foto: Bornil Amin
O que é C-UAS Brasil e por que o país entrou na corrida tecnológica
C-UAS (Counter-Unmanned Aerial Systems) é o conjunto de tecnologias e procedimentos para detectar, identificar, rastrear e neutralizar drones hostis ou não autorizados.
O avanço do C-UAS Brasil acompanha uma tendência global de fortalecimento das capacidades de defesa contra drones. À medida que aeronaves não tripuladas se tornam mais acessíveis e sofisticadas, cresce também a demanda por sistemas anti-drone capazes de detectar, rastrear e neutralizar ameaças em ambientes civis e militares.
A arquitetura típica combina sensores (radar, RF, EO/IR, acústico) com efetuadores cinéticos ou eletrônicos (jammers, spoofers GNSS, lasers, redes e munição programável). É uma camada defensiva e cada vez menos opcional para forças armadas, infraestrutura crítica e eventos de grande público.
O gatilho brasileiro tem três frentes. Primeiro, a segurança de grandes eventos: o G20 no Rio em 2024 expôs lacunas claras na cobertura antiaérea de baixa altitude.
Esse cenário acelerou investimentos públicos e privados voltados ao desenvolvimento do C-UAS Brasil, impulsionando projetos de radares, guerra eletrônica, sensores RF e tecnologias de neutralização de drones.
Segundo, a fronteira amazônica, onde drones de facções já transportam carga entre Colômbia, Peru e Brasil rotineiramente.
Terceiro, a leitura doutrinária da guerra na Ucrânia, que mostrou um detalhe incômodo: blindados de US$ 5 milhões viram sucata para FPVs de US$ 500.
Foto: Emanuel Pedro
O que pouco se diz é que o Exército estava, até 2022, com a doutrina antiaérea voltada para aeronaves tripuladas e mísseis. Drones Classe I (até 150 kg) eram tratados como anomalia. Mudou. E mudou rápido. A agenda C-UAS Brasil passou a ocupar espaço permanente nas discussões sobre capacidades futuras de defesa.
Mapeando os fornecedores que disputam o mercado C-UAS Brasil
O ecossistema nacional ainda é jovem, mas já tem nomes consolidados misturados a startups com tração real. Vale separar por camada da kill chain.
Detecção e rastreio
IACIT — radar SABER M200 com módulos C-UAS testados em exercícios da Artilharia Antiaérea em Formosa (GO). Cobertura de baixa altitude até 20 km contra alvos Classe I.
Bradar (Embraer Defesa) — radares M-200 e variantes adaptados para alvos lentos e pequenos (LSS targets), nicho onde radares convencionais apresentam limitações.
Harpia Sistemas — JV Embraer/Atech/AEL Sistemas, integrando sensores em arquitetura de comando e controle antiaéreo.
Stara Defense, Cronos e XMobots — players menores com soluções RF e EO em fase de avaliação operacional.
Neutralização (soft kill e hard kill)
Akaer e CLS Defesa — jammers portáteis e veiculares, alguns derivados de licenças com fornecedores israelenses.
Taurus Armas — entrou no jogo com fuzis adaptados e munição airburst para engajamento cinético de Classe I.
Mac Jee — desenvolvendo munição de artilharia programável para nicho C-RAM/C-UAS.
O ecossistema de C-UAS Brasil ainda está distante da maturidade observada em países como Israel e Estados Unidos, mas apresenta evolução consistente. A combinação entre empresas de defesa, centros de pesquisa e demanda governamental vem fortalecendo o mercado nacional de defesa contra drones.
O elefante na sala continua sendo a dependência de componentes importados, especialmente módulos de RF de alta potência, antenas AESA miniaturizadas e GPUs para fusão de sensores. A BID brasileira monta. Raramente desenha do zero.
A busca por maior autonomia tecnológica tornou-se uma das prioridades estratégicas para o setor de C-UAS Brasil, principalmente em áreas críticas como radares, guerra eletrônica e sensores avançados.
Doutrina emergente: o que o Exército está, de fato, escrevendo sobre C-UAS Brasil
O Centro de Doutrina do Exército (C Dout Ex) e o COTer revisaram o manual EB70-MC-10.221 (Defesa Antiaérea) com adendos específicos para ameaças UAS Classe I e II ao longo de 2024.
A divisão por classe segue a OTAN: Classe I até 150 kg, Classe II entre 150 e 600 kg e Classe III acima disso.
A maior parte da ameaça real no Brasil hoje? Classe I micro e mini. DJI Mavic 3, Autel Evo e FPVs caseiros.
A doutrina emergente tem três pilares.
Primeiro, layered defense. Não existe sistema único que resolva.
Segundo, integração com Remote ID e protocolos UTM que a ANAC ainda está regulamentando. O BR-UTM previsto para 2026 pode alterar significativamente a forma como o C-UAS Brasil identifica e classifica ameaças.
Terceiro, regras de engajamento que considerem o ambiente civil. Jammear GNSS no perímetro de um aeroporto não é trivial, e a Anatel tem opinião sobre isso.
Na minha leitura, o ponto mais delicado da doutrina C-UAS Brasil é justamente o jurídico-operacional: quem autoriza o abate de um drone em território nacional, em tempo de paz?
A resposta hoje é confusa. Envolve Aeronáutica, Defesa, Justiça e Polícia Federal. Em evento de massa, isso precisa ser decidido em oito segundos, não em oito reuniões.
Foto: Keysi Estrada
Os gargalos da BID que ninguém quer admitir em público
Conversei nos últimos meses com engenheiros de três empresas da BID e a história se repete.
Capital de giro curto.
Ciclo de compra do governo longo demais.
Exigência de conteúdo local que, em alguns componentes, é fisicamente impossível de cumprir hoje.
Componentes críticos
Semicondutores GaN para RF de potência, módulos T/R para radares AESA e óticas SWIR refrigeradas vêm todos de fora. Sem política industrial específica, continuarão vindo.
Ciclo de aquisição
De RFI a contrato, a média no segmento C-UAS está em 27 meses. Para uma tecnologia que evolui a cada seis meses, é morte lenta.
Reduzir esse prazo será essencial para manter a competitividade do mercado C-UAS Brasil, já que as ameaças evoluem muito mais rápido do que os processos de aquisição governamental.
Falta de infraestrutura de testes
O Campo de Provas da Marambaia e o CAvEx em Taubaté são bons, mas saturados.
Falta infraestrutura dedicada para testes de guerra eletrônica anti-drone com espectro liberado.
Pipeline de talentos
Engenheiros de RF sêniores no Brasil cabem em um ônibus. Literalmente.
A verdade incômoda é que o Brasil pode acabar comprando soluções turnkey de Israel, Turquia ou Estados Unidos enquanto a BID nacional ainda discute prototipagem.
O que observar nos próximos 18 meses no C-UAS Brasil
Três sinais valem o monitoramento atento de quem acompanha a evolução do C-UAS Brasil.
SisDABRA
BR-UTM e Remote ID
Soluções contra enxames
COP30: o primeiro grande teste do C-UAS Brasil
A próxima fase do C-UAS Brasil dependerá diretamente da capacidade da indústria nacional em transformar protótipos promissores em soluções operacionais escaláveis.
Considerações finais
O mercado C-UAS Brasil é real, está crescendo e tem uma janela curta para a indústria nacional se posicionar antes que soluções turnkey importadas dominem definitivamente o setor.
Quem souber integrar sensores nacionais, sistemas anti-drone e tecnologias de guerra eletrônica em ciclos menores que os atuais 27 meses terá vantagem competitiva.
Quem esperar o edital perfeito corre o risco de perder espaço em um dos segmentos mais promissores da Base Industrial de Defesa.
Quer continuar atualizado sobre o mercado de drones? Confira também: