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Part 108 da FAA: o que muda no BVLOS global e por que operadores fora dos EUA devem se preocupar

Enquanto a mídia americana trata a Part 108 como assunto doméstico, a regra deve virar referência normativa para ANAC, EASA e reguladores asiáticos — moldando certificação, seguros e UTM globalmente.

7 min de leitura
Drone comercial em voo de longo alcance sobre paisagem urbana, ilustrando operações BVLOS

A FAA Part 108 BVLOS está redefinindo as operações de drones globalmente. Entenda como essa nova regra da FAA impactará a certificação, seguros e UTM para operadores de drones fora dos EUA, incluindo ANAC e EASA.

Em 6 de junho de 2025, a Casa Branca publicou uma ordem executiva instruindo a FAA a finalizar, em 240 dias, a regra que a indústria de drones vem esperando há quase uma década. A FAA Part 108 BVLOS — a norma federal americana para operações de drones além da linha visual (BVLOS) — deixou de ser promessa e virou cronograma. E aqui vai a parte que a imprensa dos EUA finge não ver: essa regra vai pautar ANAC, EASA, CAAC e meia dúzia de outros reguladores que, francamente, não têm banca técnica para redesenhar tudo do zero. A certificação de drones e a regulamentação de BVLOS serão profundamente impactadas pela FAA Part 108.

Se você opera drones comerciais no Brasil, na Europa ou no Sudeste Asiático, o que sai do Federal Register em Washington nos próximos meses vai reaparecer, com sotaque, no seu manual de operações. A Part 108 da FAA é um marco fundamental para a regulamentação de drones BVLOS.

O que é a FAA Part 108 BVLOS, em 50 segundos

A Part 108 é a nova subparte do Título 14 do CFR que cria um caminho de certificação permanente para operações BVLOS (Beyond Visual Line of Sight) sem exigir waiver caso a caso. Ela substitui o processo atual — via Part 107 waiver ou Part 135 — por um framework baseado em risco, com três níveis de qualificação de aeronave, requisitos de detect-and-avoid, e integração obrigatória com serviços UTM certificados. Na prática, a FAA Part 108 tira o BVLOS do limbo experimental, facilitando a certificação de drones para operações mais complexas.

Por que a Part 108 destrava (finalmente) a escala comercial de drones

O modelo de waiver do Part 107 nunca foi feito para escala. Zipline, Wing e Flytrex passaram anos empilhando exemptions individuais, cada uma com envelope operacional restrito. A UPS Flight Forward, que virou Part 135 em 2019, conseguiu voar — mas com limitações que nenhuma operação de entrega de última milha sustenta economicamente. A certificação de drones sob a Part 107 era um obstáculo para o crescimento do setor BVLOS.

A Part 108 muda a lógica. Em vez de aprovar operações, ela certifica combinações aeronave + operador + sistema de mitigação. Você prova, uma vez, que o pacote fecha o TLOS (Target Level of Safety) de 10⁻⁶ ou 10⁻⁷ dependendo da categoria — e replica a operação. É o mesmo racional do SORA europeu, só que com dentes regulatórios de um órgão que ainda dita padrão global de aviação. Esta nova abordagem da FAA para BVLOS é um divisor de águas para a indústria de drones.

Close-up de sensores de detecção e prevenção em drone profissional
Sistemas Detect-and-Avoid com performance mensurável estão no centro dos três tiers de certificação da Part 108.

Foto: Abrar Hashim

Três tiers de certificação para drones sob a Part 108: shielded (baixa altitude, corredores), populated overflight limitado, e operações de longo alcance;
DAA obrigatório com performance mensurável (não mais "see-and-avoid equivalente");
Remote ID Broadcast + Network ID acoplado — a discussão de "broadcast only" morreu;
Integração compulsória com USS (UAS Service Suppliers) aprovados, impactando diretamente o UTM para operações BVLOS.

O efeito dominó da Part 108 sobre ANAC, EASA e reguladores asiáticos

Aqui está o ponto que a imprensa doméstica americana não cobre: reguladores fora dos EUA não têm orçamento, corpo técnico nem apetite político para escrever do zero uma norma BVLOS para drones. O que fazem, historicamente, é observar FAA e EASA, esperar a poeira baixar, e adaptar. A influência da Part 108 da FAA será global na regulamentação de drones.

A ANAC brasileira publicou o RBAC-E 94 em 2017 e, oito anos depois, ainda opera BVLOS via autorização especial da SPO-ANAC — caso a caso, com prazos que fazem operador de mineração chorar. Vale, Petrobras e as elétricas que tentam inspeção BVLOS em linha de transmissão convivem com um vai e volta interminável de ofícios. Na minha leitura, a ANAC vai copiar a espinha dorsal da Part 108 dentro de 24 meses após publicação final — provavelmente amarrando ao SARPAS do DECEA para a parte de espaço aéreo. A certificação de drones no Brasil se beneficiará dessa harmonização com a FAA Part 108.

A EASA está num movimento paralelo. O pacote de Specific Category e o SORA 2.5 já dialogam com o rascunho da Part 108 — a AW-Drones working group publicou, em 2024, uma matriz de equivalência. Ou seja: a convergência já está em andamento nos bastidores. Reguladores asiáticos (CAAC na China é exceção — anda por conta própria; Japão, Coreia, Cingapura seguem o padrão ocidental) tendem a importar o texto quase literal. A EASA e a FAA estão alinhando suas abordagens para BVLOS, com a Part 108 como referência.

O caso brasileiro e a Part 108, na prática

Quem opera BVLOS hoje no Brasil — Speedbird Aero em entrega, XMobots em agro e defesa, Nuvem UAV em inspeção — sabe que o gargalo não é tecnologia. É a insegurança jurídica de operar com autorização experimental que expira. A Part 108, ao virar referência internacional, dá à ANAC um template pronto para acelerar a certificação de drones. Isso é bom. Também significa que quem estruturou operação sob regime frouxo vai ter que se adequar. Isso incomoda. A regulamentação de drones no Brasil precisa dessa clareza que a FAA Part 108 pode oferecer.

Seguros, UTM e a cadeia de drones que vai se reorganizar

Seguradoras aeronáuticas — Global Aerospace, Allianz, AIG — já sinalizaram que vão precificar prêmios BVLOS com base no tier da Part 108, mesmo para operações fora dos EUA. Faz sentido: é o benchmark mais robusto disponível. Um operador brasileiro certificado num equivalente-Part-108 pagará menos que um operando sob autorização discricionária da ANAC. A conta vai chegar. Os seguros para drones serão diretamente afetados pela Part 108 da FAA, impulsionando a certificação.

No UTM, o efeito é ainda mais direto. Empresas como AirMap, ANRA, OneSky e Unifly desenharam suas stacks para o modelo americano. Quando ANAC ou EASA adotarem requisitos análogos de USS, essas plataformas entram plug-and-play — deixando players locais correndo atrás. O DECEA tem projeto de UTM nacional (o SARPAS-NG), mas o cronograma público é vago. A gestão de tráfego de drones (UTM) será padronizada pela Part 108, facilitando a integração de sistemas BVLOS.

Recomendações para operadores de drones

Revise seu manual de operações contra a matriz de risco da Part 108 (o draft de 2024 já dá pistas suficientes) para garantir a certificação de seus drones BVLOS;
Documente performance real de DAA — não estimativas de fabricante, dados de voo de drones;
Pressione seu USS/UTM provider por roadmap de conformidade internacional com a Part 108;
Negocie apólices de seguros com cláusula de revisão pós-adequação regulatória — pode render desconto retroativo.

Onde a Part 108 vai falhar (e onde o Brasil pode fazer diferente na regulamentação de drones)

A regra tem furos. O DAA baseado em ADS-B ignora que boa parte da aviação geral brasileira não transponde — situação parecida em partes da África e do sudeste asiático. Copiar a Part 108 sem adaptar o envelope de tráfego não cooperativo é receita de acidente para operações de drones BVLOS.

Segundo ponto: a Part 108 assume infraestrutura de telecom celular densa. Voar BVLOS na Amazônia, no Pantanal ou em corredor de mineração em Carajás não tem 4G contínuo. A ANAC precisa preservar caminhos para operação com link satelital (Starlink, OneWeb, hoje já em teste pela XMobots) e comando degradado — algo que o texto americano trata de forma tímida. A FAA precisa considerar essas realidades geográficas para uma aplicação global da Part 108.

Drone sobrevoando região remota da Amazônia com cobertura de rede limitada
Voar BVLOS na Amazônia ou em Carajás exige adaptar a régua da Part 108 à realidade de conectividade local.

Foto: Pok Rie

A verdade incômoda é que copiar mal é pior que não copiar. Se a ANAC transpuser a Part 108 sem adaptar densidade de tráfego, cobertura de rede e realidade geográfica, vai criar norma inaplicável — e o setor de drones volta para o waiver.

Considerações finais sobre a Part 108 e o futuro dos drones

A Part 108 vira lei nos EUA em 2026. O impacto internacional começa antes disso — nos contratos de seguros, nos roadmaps de USS, nas conversas de bastidor entre ANAC, EASA e FAA. Ignorar essa regra porque "é americana" é o tipo de erro estratégico que operador brasileiro de drones paga caro em 2027. A FAA Part 108 é a chave para o futuro do BVLOS.

A Part 108 será o template de facto para BVLOS global — ANAC e EASA vão convergir, quiser ela ou não, impactando a certificação de drones;
Prêmios de seguros passarão a refletir conformidade Part 108-equivalente, mesmo em operações fora dos EUA;
UTM vira commodity certificada — planejar migração de USS agora evita retrabalho na gestão de tráfego de drones;
Adaptação brasileira precisa endereçar tráfego não cooperativo e link satelital, ou nasce morta para a regulamentação de drones.

Fique de olho no Federal Register no primeiro trimestre de 2026. E na primeira consulta pública da ANAC que citar "harmonização internacional" — é aí que a régua muda para o setor de drones, impulsionada pela FAA Part 108.