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Artigo

Part 108 da FAA: o que o NPRM de BVLOS muda para operadores comerciais fora dos EUA

Análise técnica do NPRM da Part 108 sob a ótica de operadores latino-americanos e europeus: o que o novo marco dos EUA sinaliza para ANAC, EASA e reguladores que ainda tratam BVLOS por waiver.

5 min de leitura
Drone comercial em voo de longo alcance sobre área rural, ilustrando operações BVLOS

Agosto de 2025. A FAA publicou o Notice of Proposed Rulemaking da Part 108 o marco que finalmente move BVLOS do regime de waiver caso a caso para uma regra estruturada. Para quem opera nos EUA, é a virada esperada desde o relatório do ARC de 2022. Para operadores latino-americanos e europeus, a pergunta é outra: o que a Part 108 BVLOS sinaliza para ANAC, EASA e para os reguladores que ainda tratam voos além da linha visual como exceção autorizada?

A resposta curta: muda o benchmark técnico global. A resposta longa exige olhar o texto do NPRM, entender o que ele exige de fato e comparar sua lógica de risco com o SORA europeu e com a evolução regulatória brasileira, que culminou no RBAC 100. É o que faço abaixo.

O que é a Part 108 BVLOS, em 50 palavras

A Part 108 é a proposta da FAA que cria uma certificação permanente para operações Beyond Visual Line of Sight com drones abaixo de 1.320 lb (599 kg). Substitui o modelo atual, baseado em waivers da Part 107, por três caminhos de conformidade permit, certificate e operating authorization com requisitos escalonados de detect-and-avoid, treinamento de piloto e responsabilidade do fabricante.

O que o NPRM realmente propõe (e o que a imprensa simplificou)

O texto tem 400 páginas. Não vou fingir que li linha por linha, mas os pontos estruturais são claros. A FAA propõe três tiers de operador:

  1. Part 108 Permit — operações de baixo risco (agricultura, inspeção linear em áreas rurais), com barreira de entrada menor e limites operacionais mais rígidos.
  2. Part 108 Certificateoperações complexas, incluindo suburbano e sobrevoo de pessoas não participantes, com SMS obrigatório e certificação de aeronavegabilidade do drone.
  3. Operating Authorization — caminho intermediário para operadores com histórico documentado, negociado caso a caso mas dentro do framework.
Drone agrícola pulverizando lavoura em operação de baixo risco
Operações agrícolas devem se enquadrar no tier de menor barreira da Part 108.

Foto: Marios Gkortsilas

O ponto que pouco se discute: a Part 108 desloca a responsabilidade regulatória para o fabricante. O drone precisa ser "produced under Part 108", com declaração de conformidade e ADS-B/Remote ID nativos. Skydio, Zipline, Wing e Matternet estavam prontos para isso desde 2023 DJI e a maioria dos fabricantes chineses, francamente, não estão. E aqui mora metade da polêmica.

Por que isso interessa ao operador brasileiro

A ANAC opera BVLOS hoje sob a IS nº 21/2023 e o RBAC-E nº 94, com autorizações específicas via SARPAS. Na prática, cada operação BVLOS no Brasil ainda passa por análise individual a Raízen conseguiu autorização para monitoramento de cana em Piracicaba em 2024, mas o processo levou meses. É o mesmo modelo de waiver que a FAA está agora aposentando.

Historicamente, a ANAC segue a FAA com 3 a 5 anos de atraso. O RBAC-E nº 94 (2017) espelhou a Part 107 (2016). Se o padrão se repete, veremos um RBAC-E dedicado a BVLOS entre 2028 e 2030. Aviso: essa previsão é minha leitura, não promessa de nada.

Drone realizando inspeção de linhas de transmissão em corredor linear
Inspeções lineares são hoje o principal caso de BVLOS autorizado pela ANAC via SARPAS.

Foto: Vincent Photography

Enquanto isso não vem, três coisas mudam já para quem opera no Brasil:

  • Fornecedores de DAA (detect-and-avoid) como Iris Automation e uAvionix vão calibrar seus produtos aos limites da Part 108. Quem comprar em 2026 vai receber hardware desenhado para o padrão americano.
  • O custo de conformidade cai. Um sistema DAA que hoje sai por US$ 40k tende a virar commodity de US$ 8-12k até 2027, segundo projeção da Drone Industry Insights.
  • Operadores que já rodam BVLOS via SARPAS vão poder usar a documentação técnica da Part 108 como evidência de mitigação em SORA e em pleitos junto à ANAC. Ajuda o processo. Não resolve.

O contraste com a EASA e o SORA 2.5

A Europa foi por outro caminho. O SORA (Specific Operations Risk Assessment), na versão 2.5 publicada em 2024, é baseado em risco — o operador demonstra que a operação está abaixo de um limite de ground e air risk, e propõe mitigações. Não há tiers rígidos. Há uma matriz.

A Part 108 é mais prescritiva. Diz quais tecnologias, quais treinamentos, quais horas de piloto. O SORA diz "demonstre que é seguro". Cada abordagem tem vantagens. A prescritiva escala rápido 500 operadores certificados em 18 meses é factível. A baseada em risco acomoda melhor operações inovadoras (drone-in-a-box da Percepto, delivery urbano da Manna), mas trava em análise técnica.

A verdade incômoda: a EASA vai olhar a Part 108 e importar partes dela. Já aconteceu com Remote ID (a EU adotou primeiro, mas ajustou depois do padrão ASTM F3411 vencer nos EUA). O ciclo se repete.

Detect-and-avoid: onde a régua sobe de verdade

O item técnico mais duro do NPRM é o DAA. A Part 108 exige capacidade de detectar e evitar tráfego cooperativo (ADS-B) e não-cooperativo (aeronaves sem transponder, incluindo ultraleves e planadores). Isso é caro. É pesado. E é o gargalo real do BVLOS em escala.

Soluções de superfície como o Casia G da Iris Automation, sensores ground-based que criam uma "bolha" de vigilância ao redor de um corredor devem virar padrão para operações lineares (dutos, linhas de transmissão, ferrovias). A Petrobras testou uma configuração assim em 2024 no trecho GASBOL, com resultado que executivos descreveram informalmente como "promissor mas caro".

Sensor de superfície para detecção e desvio de tráfego aéreo em operações com drones
Sistemas DAA de superfície tendem a se tornar padrão em corredores lineares.

Foto: Bernd 📷 Dittrich

Para operações pontuais inspeção de torre, mapeamento de fazenda a exigência ainda é indefinida. O NPRM abre consulta pública até fim de 2025. Vale participar. Reguladores leem os comentários internacionais, mesmo quando fingem que não.

Um efeito colateral: a fragmentação de fabricantes

Se DJI não certificar produtos sob Part 108 e há sinais políticos de que não vai, dado o Countering CCP Drones Act o mercado americano de BVLOS vai ficar com Skydio, Freefly, Wingcopter, Zipline, Wing. Isso empurra preço para cima.

O operador brasileiro fica no meio. Continua tendo acesso a hardware DJI (Mavic 3 Enterprise, Matrice 350 RTK) por preço competitivo, mas sem o "selo" Part 108 se um dia quiser exportar serviços ou operar em cliente multinacional que exija equipamento com aeronavegabilidade FAA. Uma bifurcação silenciosa.

Drone profissional em voo sobre instalação industrial, representando frota corporativa

Foto: Nenyasha Manzvera

Considerações finais

A Part 108 não vira lei em 2025 nem provavelmente em 2026 o ciclo NPRM/final rule da FAA costuma levar 18-30 meses. Mas o texto já é o novo piso da conversa técnica global sobre BVLOS. Quem opera no Brasil, no México ou na Argentina deveria tratar o NPRM como leitura obrigatória, não como notícia estrangeira.

  • Acompanhe a consulta pública da FAA (docket FAA-2024-XXXX) e submeta comentários se sua operação for afetada operadores não-americanos podem comentar.
  • Ao comprar hardware novo em 2025-2026, pergunte ao fabricante sobre roadmap de conformidade Part 108. Se não souberem responder, é sinal.
  • Documente suas operações BVLOS atuais no formato de risk assessment do SORA é o formato que ANAC e EASA vão pedir, e serve de ponte para eventual conformidade Part 108.
  • Não espere a ANAC. Quem constrói SMS, DAA e treinamento agora, dita o preço quando a regra chegar.